sexta-feira, 1 de maio de 2015

PROPOSTA DE TRABALHO: ANÁLISE DO POEMA JOSÉ - CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


José

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio — e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José!
José, para onde?
   

   O poema de Carlos Drummond de Andrade oferece boas possibilidades de se trabalhar sobre múltiplas perspectivas de análise: Semântica, Pragmática e até a Análise do discurso. É riquíssimo em profundidade e conhecimento da fraqueza humana, particularmente a fraqueza do homem diante de si mesmo.
   Para se trabalhar este poema em sala sob a perspectiva pragmática acredito que seria interessante apresentar previamente um breve resumo da vida e obra do poeta, bem como uma noção do universo melancólico encontrado com frequência na linguagem poética. Isso poderia influenciar os alunos a uma leitura menos “estranhada” em relação ao poema. A leitura poderia ser feita inicialmente pelos alunos, fazendo-os estabelecerem o primeiro contato com o poema e buscando extrair deles suas impressões iniciais que seriam registradas pelo professor no quadro. A segunda leitura poderia ser feita pelo professor, ou um aluno consciente da entonação adequada ao ler o poema. Essa leitura se destinaria a fazê-los  perceber a dramaticidade em que se encontra José. Após essa segunda leitura partiríamos para o estudo de cada estrofe do poema destacando algumas palavras buscando provocar os alunos quanto às verdadeiras intenções do poeta ao usá-las, tais como:

·   O que significam os diversos eventos que acabaram na primeira estrofe? “A festa acabou, a luz apagou...” Ele estava realmente em uma festa?Está triste só por causa do fim da festa? José faz versos, José é poeta também, ou José e o Autor são um só?

·   Destacaria junto com eles a gravidade da solidão de José que na segunda estrofe não tem nenhuma fuga, nem bebida, nem fumo, nem mulher.

·   Perguntas provocativas e reflexivas seriam feitas a respeito da  antítese gula e jejum, dos pertences burgueses como a biblioteca ou sua fortuna e ainda trabalharia a figura austera e frágil de um terno de vidro.

·   Pela prévia pesquisa sobre a vida do autor, sutilmente faria os alunos perceberem os pontos comuns entre José e o poeta (Minas de ontem que já não existe mais), a dureza do ferro (Provável referência à produção de aço de sua cidade natal: Itabira).

·   O fato do nome comum e tão “brasileiro”, José, seria destacado fazendo-os perceber o caráter de coletividade popular que essa denominação traz em si.

   Todos esses pontos em destaque se encaixariam em uma aula destinada a alunos com certo grau de maturidade (2º ou 3º do médio) e toda a metodologia seria feita por meio de análise de grupo. O fechamento da aula seria feito através de uma segunda produção textual que seria comparada com a primeira produção que eles haveriam feito antes de toda a reflexão. Isso os ajudaria a perceber a profundidade da linguagem e seus significados e o que é preciso fazer para se atingir esse nível: Refletir sobre as várias possibilidades que se pode encontrar nas palavras dentro de um contexto.

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