segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

O quintal assombrado



O quintal assombrado

Há um pedaço do homem que ficou na velha casa

Há tempos deixou a velha casa, mas ela nunca o deixou

Ela sobrevive em suas lembranças

Leva-o para seu interior quando bem lhe convém

Logo se vê no grande alpendre que dá para o quintal

Seu quintal é a serra, colossal, apoteose verde

A grande mangueira o saúda imponente

Em suas raízes ele voltará a impulsionar o carro a fricção

Mas carro de fricção não serve em areia de serra, areia escura

É necessário involuir, portanto o carrinho já não é mais de fricção

Nada moderno funciona no quintal, tudo é verde, frio, calmo e tranquilo

É o quintal dos macacos, das raposas, do córrego de inverno e dos guaxinins noturnos

À noite a escuridão escorrega da serra e invade o quintal

Ela desliza por sobre as árvores e põe a correr o medroso menino e seu carrinho

"Foge menino, pois a noite reclama seu reino" diz ela prontamente atendida

A noite é a hora da casa, da grande casa com data de construção - 1915

Acima, muito acima, as velhas carnaúbas escuras e tenebrosas sustentam o antigo telhado

O menino sabe que se olhar pra cima pode ver um fantasma ou um demônio

O medo o faz aproximar-se de todos, visitas que se encostam na porta dupla pra assistir tv

E bebem café, e conversam e gritam e brigam e riem num frenesi assustador

Vozes de homens, raros em suas lembranças, para ele as tias é que governavam

As muitas tias, primas, vizinhas... sempre as mulheres

Os homens?... andarilhos ocasionais

Na velha rede, olhar a mãe a rezar, pedir a "bença" e rezar também

Pedir a Deus pra dormir logo e não ter que ir ao banheiro e não ver barata, aranha nem fantasma... que amanheça logo Senhor.

28/12/2015

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